quarta-feira, 16 de abril de 2014

Raridade! - Crônica

Todo mundo sabe que a ideia do blog é divulgar coisas interessantes sobre a língua e que, por isso, ele não é autoral. Mas escrevi um texto hoje e deu uma vontadezinha de publicar... Taí, meu povo e minha pova, uma crônica minha.

DUAS MOEDAS - crônica

Arredores da Praça da Liberdade. Hora do almoço. Um malabarista, pobre e sujo, tenta divertir os motoristas no sinal fechado. Nas mãos, que mal completaram quinze anos, um bastão aceso, que ele gira habilmente. O fogo se funde ao calor do ambiente e parece engoli-lo um pouco a cada rodopio. 

Meus filhos olham extasiados para tudo aquilo. Tiro duas moedas da carteira e entrego nas mãozinhas gorduchas, ávidas por darem ao artista um reconhecimento, pobre e sujo, da sua habilidade. 

O rapazinho termina o breve espetáculo e caminha entre os carros, passando o chapéu. Diversos motoristas olham, constrangidos, para baixo ou para o sinal que insiste em se manter vermelho. 

Meus filhos esticam os braços para chamar a atenção do menino. Ele vem bambolejando, com um sorriso impresso no rosto sujo de fuligem e maquiagem. Recebe as duas moedinha e olha, de relance, para as crianças, que vestem o uniforme da escola. 

Como um sábio ancião, o malabarista ergue o dedo indicador e, sem interromper o passo e o sorriso, aconselha: "nunca deixem de estudar!"

Tenho certeza de que, para os pequenos, foi um conselho banal. Mas eu, de repente tão pequena diante de todas as injustiças do mundo, fiquei me perguntando quantas oportunidades foram negadas àquele garoto e tudo o que ele poderia ter sido: seria ele artista? Os olhos das pessoas se desviariam à sua passagem?

Engoli em seco e enxuguei uma lágrima que insistiu em borrar o verde que se acendeu no sinal. Aquelas duas moedas, que não pagavam um café na esquina, me deram uma rica lição na hora do almoço, nos arredores da Praça da Liberdade, naquela véspera de feriado.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Argumentação

Dá um orgulho danado saber que esse cara sentou na minha sala de aula... Texto muito legal do "vetustíssimo" Guilherme Morais sobre argumentação.



Descubra se você está sendo enganado numa discussão. (pt.1)
(Contém um desafio no final!)

No nosso dia a dia, frequentemente discutimos determinados assuntos com outras pessoas, seja ele moral, religioso, científico e até futebol. De forma recorrente, encontramos falácias nos argumentos das pessoas(e até mesmo nos nossos).
Falácias são erros de argumentação. Propositais, ou não. E não se trata do conteúdo em si, mas de sua validade. São inúmeras as falácias existentes, mas vamos discorrer apenas sobre as principais:

- Afirmação do consequente: Essa falácia, em certas discussões, é uma das mais difíceis de serem verificadas. Consiste em trocar o antecedente pelo consequente. Com um exemplo fica mais fácil, veja:

Se você estudar para a prova, irá ter nota boa.
Você teve uma nota boa, logo, estudou.

Confira que a primeira afirmativa é verdadeira. Se você estudar, terá nota boa. Mas não necessariamente teve nota boa porque estudou. O professor pode ter feito uma prova óbvia, você colou, etc.

- Negação do antecedente: Consiste na conclusão depender exclusivamente do que a antecede. Ex:

Se o time jogar bem, irá ganhar.
O time não ganhou. Então, não jogou bem.

Quem garante que o árbitro não foi quem prejudicou a equipe?

- Inversão da Condicional: Quando se nega a condicional e automaticamente se nega a conclusão.

Todos os brasileiros são bonitos.
João não é brasileiro, logo, não é bonito.

- Derrapagem: Esse é um dos mais comuns. Consiste em estabelecer afirmações geralmente verdadeiras, mas que chegam a uma conclusão falsa. Ex:

Se você for pra faculdade, terá que estudar muito.
Se você estudar muito, não poderá se divertir.
Se você não se divertir, irá ficar triste.
Se você ficar triste, pode ter depressão.
Se você tiver depressão, pode querer se matar.
Logo, se você for pra faculdade, irá querer se matar.

Confira que os argumentos tem validade, mas quando se chega na conclusão, se torna algo absurdo.

- Falso dilema: Muitas vezes usado na política. Se baseia em oferecer apenas duas alternativas, excludentes entre si. Ex:

Precisamos aumentar os impostos, senão a Educação será prejudicada.

Notadamente, um aumento de impostos gera recursos ao governo, que pode investir mais. No entanto, não necessariamente esse dilema é verdadeiro. Pode-se buscar mais alternativas.

- Apelo à autoridade: Esse argumento, muitas vezes, pode ser válido. Para isso, deve-se notar quem o pronuncia, e se existe um consenso entre os mesmos especialistas na área. O argumento torna-se falacioso quando a autoridade em questão não está envolvida no assunto. Ex:

O criacionismo é verdade. Sou doutor em Matemática e sei do que estou falando. 

Viu com quantas maneiras podemos ser enganados? E existem muitas outras que serão postadas! Atente para o uso e tente descobrir.
Desafio: Poste nos comentários qual é a falácia empregada por essa âncora: http://www.youtube.com/watch?v=M3Wd4wV1-ZQ

Dicas de leitura:
Retórica - Aristóteles
Bule voador(fonte da imagem)

Por: Guilherme Morais.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Soluções geniais para a escola e a educação - Artigo de opinião

Ô, povo e pova! Faz tempo que não posto nada (tempo mesmo, desde novembro!). Então, vale uma reflexão bacana da Ana Elisa Ribeiro, doutora em Língua Portuguesa e professora do CEFET-MG.

Soluções geniais para a escola e a educação - Ana Elisa Ribeiro

Fico encafifada com aquela turma que acha vantagem colocar filho em escola privada. O negócio mesmo é que estamos no mato sem cachorro e sem professor, em qualquer modalidade de educação, cá entre nós. Mas inventaram aí que educação privada é uma beleza e a gente segue acreditando. É tudo questão de fé, não de fato. Mas vamos lá ver as listinhas de resultados de exames isto e aquilo. Seguem valendo como argumento pra dizer que a escola tal é boa e a outra, o contrário. Ah, vá. Veste-se um santo para deixar o outro nuzinho em pelo. E assim vamos caminhando, capengando geral. 

Só pra começar - e contrariar -, educação é um lance bem amplo, comprido e estofado. Vem de berço, vem de escola, vem de família, vem de bairro, amigos e inimigos. Educação é a quantidade de vezes que você foi ao cinema e leu um livro, tanto quanto o tanto de xis que você marcou nas provas. Educação é lindo. Acontece até sem querer, mas, querendo, fica bem mais legal. A educação é um direito. Se for a básica então, aquela do fundamental ao médio, aí é que deveria mesmo ser direito. Mas não é. Assim como o transporte público - que é privado -, a educação, no Brasil, é um favor. Um grande favor pelo qual você precisa pagar. E vamos lá. 

Dia desses, rolou um episódio que misturava várias coisas controversas na escola do meu filho: crianças, novas tecnologias e banheiros. Um guri, a certa altura do horário escolar, saiu muito ouriçado do banheiro masculino, dizendo que foi flagrado por uma câmera de celular enquanto fazia qualquer coisa necessária em um dos vasos sanitários. Ninguém viu nada direito. Nem a vítima. O piá só dizia ter visto uma mão por cima da porta do cubículo e aquele barulhinho de fotografia. Ou seria filme? E agora? Pra onde vai essa imagem? Mas não dava pra identificar se a mão era de outra criança, de adulto, de homem ou mulher. Só dava pra ficar bem assustado.

A história foi parar no ouvido dos pais do garoto, do diretor geral e da cidade inteira. Havia grupos de pais no Facebook pra discutir - inflamadamente - a questão; havia jornalistas produzindo matérias acusatórias e julgamentosas nos jornais da capital mineira. Havia de tudo. A mãe, compreensivelmente alterada, narrava - inclusive nas redes sociais - o absurdo do episódio e denunciava o diretor por negligência e assemelhados. Parece que, ao procurar o dirigente da escola para dar conta do caso, ele teria dito a ela que "não posso fazer nada". Aí a raiva cresce e aparece. Todo mundo revoltado com o episódio.

Bem, mas de quem era aquela mão? Haveria como descobrir? O que o diretor e a escola realmente poderiam fazer? Como apurar o caso? Seguiu-se a isso uma discussão intensa sobre câmeras de segurança, inclusive nos banheiros; pedofilia; domesticação; proibição de variada natureza. Fartas e engenhosas discussões, inflamadas, apaixonadas, porque todo mundo no mundo é educador, quando a coisa aperta. 

Mas o que mais me impressionou mesmo foi uma das soluções geniais para o caso. Geralmente, elas são dadas por um pai ou uma mãe. Geralmente. Sou dessa mesma categoria, então não vou produzir prova contra mim, mas ó, te contar... Uma pulsante e antenada cabeça sugeriu a proibição absoluta da entrada de aparelhos de telefonia móvel dentro da escola, proibição estendida a professores e funcionários - o diretor, também. Cá comigo, no papel de cidadã e professora que sou, senti um engulhozinho de nojo. Como proibir esse dispositivo onipresente na escola? Como operacionalizar isso, minha gente? E como assim eu, professora (não dessa escola, frise-se), seria proibida de entrar lá com meu equipamento pessoal? E outra: logo eu, que estudo e pesquiso letramentos digitais, como poderia me animar com uma ideia dessas? Tanta gente boa estudando formas de transformar o dispositivo em motivo e plataforma de aprendizagem, e a turma ali pensando em fiscais e detectores de metais. Afe!, como dizemos na internet. 

Mais um capítulo se seguiu. O lance das câmeras nos corredores parecia ter a dianteira nas preferências das pessoas. Mas a proibição dos telefones ainda pairava. Este país tem mais aparelhos celulares do que pessoas! Olhem aí em algum dado do IBGE ou coisa assim. É verdade, amigos. E a gente ali, considerando uma ideia dessas. Mas a bela imagem que me veio foi bem outra, a de um outro sistema que não funciona: o carcerário. Tanto pela arquitetura quanto pelos moldes, a escola (e aí é qualquer uma, sinto dizer) ia ficar mais próxima ainda de se parecer com um presídio. Isso não é ideia minha não. Leia-se o Michel Foucault pra a gente pensar mais. Mas não é? Daí que eu vi aquela cena de tráfico de celular. Gente jogando aparelho por cima do muro, trazendo dentro do lanche, no bolo, no suco, escondido na vagina. Ai, que genial!

Estão me achando muito sarcástica? Tá pesado. Tá bom, vou maneirar no tom. Mas tem jeito? Que fim teve isso? Bom, outro dia, recebi o bilhete oficial informando sobre a instalação das câmeras. Vá lá. Mas sabem o que me deixou mais chateada (#xatiada, como dizemos na net)? Foi a escola não ter chamado a comunidade pra um papo-cabeça sobre o que faltou ali: ética. Ninguém falou nisso. Não recebi um bilhete chamando pra uma rodada com a moçadinha pra falar desse tipo de situação... dos riscos, da pedofilia, da invasão de privacidade, das fronteiras confusas entre público e privado, sobre desrespeito, aliás, coisa muito mais antiga do que celular e fotografia. Foi disso, pois, que eu senti falta. Senti falta de as pessoas pensarem na humanidade da situação. Quis que o foco saísse das tecnologias e das máquinas, só um pouquinho (mentira, um poucão) e fosse para o real protagonista da questão: as pessoas. 

Mas ora, estamos acostumadíssimos com isso, né? É muito mais rápido e fácil comprar e instalar câmeras do que falar de respeito. Muito mais ágil orçar detector de metais do que educar as pessoas, mostrar pra elas que continua existindo certo e errado, sim e não. As coisas não podem estar tão misturadas assim. Mas ó, que tempão seria gasto com isso! Ou ainda pior: as pessoas, mesmo nas escolas, não estão formadas e preparadas para tratar de assuntos espinhosos. Continua sendo mais prático ensinar a decorar e a apertar botão, até pra tirar foto do guri fazendo xixi. Muito mais legal dar equipamento do que qualificar professor. Pra quê, né não? 

Assim, mas não vou tirar meu filho da escola não. Nem precisam se dar o trabalho de sugerir isso. Vamos lá, adelante, como diria um amigo meu, doutor estudado. Sabem por quê: porque suspeito de que não adiante nada mudar meu piá de escola. Nadinha. Ainda estamos por descobrir a educação escolar e as novas tecnologias. Talvez, na próxima passagem da caravela. Bom, ou não. A parte que a escola não dá conta de fazer, eu pego e faço em casa. Meu filho, eu garanto, ouve sempre: senta aqui comigo, vamos conversar sobre isso? Talvez não garanta nada. Mas o talvez, por estas bandas, já me parece um benefício. 

Texto retirado do Digestivo Cultural. Original aqui.

domingo, 17 de novembro de 2013

Por que tanta gente gosta de escrever para o próprio umbigo na internet? - Artigo de opinião

Fazia tempo que eu não postava nada de útil (rs). Vai aí um artigo de opinião de um cara que tenho lido bastante e que sempre me surpreende positivamente: Leonardo Sakamoto.

Por que tanta gente gosta de escrever para o próprio umbigo na internet? - Artigo de opinião

Tirei uma hora desta manhã para colocar em dia a leitura de algumas reportagens e artigos que andei separando ao navegar pela rede. Creio que muitos de vocês compartilham com o mesmo sentimento de frustração de se deparar com tanta coisa interessante e ir juntando tudo, mesmo sabendo que nunca terá tempo para ler.

Ou, nascendo em família rica, optaram por não trabalhar e podem ler à vontade, não compreendendo patavinas da frustração supracitada.

Luta de classes à parte, o fato é que considerei muitos dos textos que separei quase impossíveis de serem compreendidos. Estavam bem formatados, adequados às normas linguísticas, mas não dialogavam com o leitor. Quando muito com o próprio umbigo sujo do seu criador.

Parecia que as palavras haviam sido escolhidas para demonstrar que seu autor tinha um bom estoque delas em seu curral intelectual e não para passar a ideia da forma mais simples possível. E simples não significa superficial ou pouco profundo.

Esta discussão é diferente daquela travada no jornalismo sobre a necessidade de fugir do economês, do juridiquês, do politiquês ou da pavonice cultural para tratar de assuntos específicos que interessam a determinados grupos. O nó é mais embaixo. Tem a ver com a vontade de esbanjar um conhecimento desnecessário a fim de se validar com determinado grupo social. Os outros jornalistas, por exemplo.

Antes da popularização da internet, o jornalista não tinha como ter certeza se foi lido ou não. Quando recebia uma mensagem escrita, já era a certeza de sucesso. A menos que o veículo impresso fizesse uma pesquisa com os leitores, era impossível aferir corretamente o ibope de determinado assunto.

Por conta de uma reportagem especial, recebi – há mais de dez anos – algo como umas duas dezenas de cartas. Sim, cartas, daquelas escritas a caneta. Sim, caneta, lápis, lapiseira – essas antiguidades paleozóicas que você descobriu em um verbete da Wikipedia. Aquilo foi algo assombroso, pelo qual estufava o peito feito um pombo e me acha o p das galáxias.

Hoje, isso se tornou corriqueiro. Em muitos casos, menos profundo, mais banal e corriqueiro. Mas quem disse que jornalismo deve ser sagrado e não mundano?

É claro que uma reportagem sobre o suicídio do pug zarolho de uma ex-BBB chama mais atenção do que o assassinato de indígenas no Sul da Bahia ou a morte de jovens na periferia de São Paulo.

Mas há um outro componente que diz respeito à linguagem usada nos textos. A quantidade de informação disponível na internet já deixou claro que teremos que ser mais atraentes para que o conteúdo que oferecemos seja consumido em detrimento a muita coisa que está por aí. As pessoas vão ler cada vez menos jornais e revistas por inteiro, com o ordenamento hierarquizado e vertical que os veículos impõem, e consumirá informação de forma horizontal, através das páginas e blogs curtidos em suas redes sociais.

Chegou a hora, portanto, de quem não se dignou ainda, descer do pedestal. Escrever para os colegas e meia dúzia de intelectuais pode ser bom para o ego e agrega valor ao camarote. Mas adotar esse modelo pensando no seu poder de pautar é esquecer que as próprias redes já fazem isso em escala muito maior com materiais que são facilmente compreendidos pela maioria, abrangendo não apenas os coleguinhas mas outros polos de difusão na internet, com capacidade de replicação maior que veículos tradicionais. Como organizações da sociedade civil, a classe artística e lideranças comunitárias, por exemplo. Criando ondas que são sentidas nos parlamentos ou nas casas de governo, sejam elas políticas ou corporativas.

O fato é que, como diria um antigo professor de jornalismo, muitas vezes escondemos nossa indiferença com o outro ao escolher a linguagem que usamos.

E isso não se altera com escolha de palavras. Mas com mudança na visão de mundo.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Proposta de redação Padre Machado

​Ter mobilidade urbana é conseguir se locomover com facilidade de casa para o trabalho, do trabalho para o lazer e para qualquer outro lugar onde o cidadão tenha vontade ou necessidade de estar, independentemente do tipo de veículo utilizado.

O que impede essa mobilidade?

Muitos são os fatores, entre os quais podemos destacar: o grande número de carros, ruas ou avenidas estreitas, antigas, de uma época em que não havia tantos automóveis circulando, motoristas estressados, falta de transporte coletivo em quantidade e qualidade suficiente e principalmente a falta de educação, tanto de motoristas quanto de pedestres​

Redija um texto dissertativo-argumentativo sobre o tema: como resolver o problema da mobilidade urbana nas grandes metrópoles brasileiras?

ATENÇÃO!
- Seu texto precisa ter, no mínimo, 15 linhas. 
- Utilize a norma culta da língua portuguesa. 
- Seu texto valerá 1 ponto.
- Não serão aceitos textos fora da data de entrega. 

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Guia da Redação ENEM - 2013

O Guia da Redação do ENEM 2013 já está disponível para download, não deixe de ler! Para baixar, clique na imagem.


sábado, 10 de agosto de 2013

Aulas do professor Rogério

Pessoal, seguem as aulas do professor Rogério para download.

Não sabe baixar? Veja um tutorial aqui.

Pessoal, as aulas do professor Rogério se encontram no blog http://sabercriar.wordpress.com/

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Arquivos da aula da Sinara - Curso de inverno

Para baixar o arquivo, clique na imagem.




Não sabe baixar? Veja tutorial aqui.

Também disponível em www.prefederal.org.br

domingo, 21 de julho de 2013

Arquivo da aula da Shirlene - curso de inverno

Para baixar o arquivo, clique na imagem.



Não sabe baixar? Veja um tutorial aqui.

Também disponível em www.prefederal.org.br

domingo, 9 de junho de 2013

Doutor Advogado e Doutor Médico: até quando? - Artigo de opinião

Por que o uso da palavra “doutor” antes do nome de advogados e médicos ainda persiste entre nós? E o que ela revela do Brasil?

Eliane Brum*

Sei muito bem que a língua, como coisa viva que é, só muda quando mudam as pessoas, as relações entre elas e a forma como lidam com o mundo. Poucas expressões humanas são tão avessas a imposições por decreto como a língua. Tão indomável que até mesmo nós, mais vezes do que gostaríamos, acabamos deixando escapar palavras que faríamos de tudo para recolher no segundo seguinte. E talvez mais vezes ainda pretendêssemos usar determinado sujeito, verbo, substantivo ou adjetivo e usamos outro bem diferente, que revela muito mais de nossas intenções e sentimentos do que desejaríamos. Afinal, a psicanálise foi construída com os tijolos de nossos atos falhos. Exerço, porém, um pequeno ato quixotesco no meu uso pessoal da língua: esforço-me para jamais usar a palavra “doutor” antes do nome de um médico ou de um advogado.  

Travo minha pequena batalha com a consciência de que a língua nada tem de inocente. Se usamos as palavras para embates profundos no campo das ideias, é também na própria escolha delas, no corpo das palavras em si, que se expressam relações de poder, de abuso e de submissão. Cada vocábulo de um idioma carrega uma teia de sentidos que vai se alterando ao longo da História, alterando-se no próprio fazer-se do homem na História. E, no meu modo de ver o mundo, “doutor” é uma praga persistente que fala muito sobre o Brasil. Como toda palavra, algumas mais do que outras, “doutor” desvela muito do que somos – e é preciso estranhá-lo para conseguirmos escutar o que diz. 

Assim, minha recusa ao “doutor” é um ato político. Um ato de resistência cotidiana, exercido de forma solitária na esperança de que um dia os bons dicionários digam algo assim, ao final das várias acepções do verbete “doutor”: “arcaísmo: no passado, era usado pelos mais pobres para tratar os mais ricos e também para marcar a superioridade de médicos e advogados, mas, com a queda da desigualdade socioeconômica e a ampliação dos direitos do cidadão, essa acepção caiu em desuso”.  

Em minhas aspirações, o sentido da palavra perderia sua força não por proibição, o que seria nada além de um ato tão inútil como arbitrário, na qual às vezes resvalam alguns legisladores, mas porque o Brasil mudou. A língua, obviamente, só muda quando muda a complexa realidade que ela expressa. Só muda quando mudamos nós. 

Historicamente, o “doutor” se entranhou na sociedade brasileira como uma forma de tratar os superiores na hierarquia socioeconômica – e também como expressão de racismo. Ou como a forma de os mais pobres tratarem os mais ricos, de os que não puderam estudar tratarem os que puderam, dos que nunca tiveram privilégios tratarem aqueles que sempre os tiveram. O “doutor” não se estabeleceu na língua portuguesa como uma palavra inocente, mas como um fosso, ao expressar no idioma uma diferença vivida na concretude do cotidiano que deveria ter nos envergonhado desde sempre.  

Lembro-me de, em 1999, entrevistar Adail José da Silva, um carregador de malas do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, para a coluna semanal de reportagem que eu mantinha aos sábados no jornal Zero Hora, intitulada “A Vida Que Ninguém Vê”. Um trecho de nosso diálogo foi este: 

- E como os fregueses o chamam?

- Os doutor me chamam assim, ó: “Ô, negão!” Eu acho até que é carinhoso.

- O senhor chama eles de doutor?

- Pra mim todo mundo é doutor. Pisou no aeroporto é doutor. É ó, doutor, como vai, doutor, é pra já, doutor....

- É esse o segredo do serviço?

- Tem que ter humildade. Não adianta ser arrogante. Porque, se eu fosse um cara importante, não ia tá carregando a mala dos outros, né? Sou pé de chinelo. Então, tenho que me botar no meu lugar.

A forma como Adail via o mundo e o seu lugar no mundo – a partir da forma como os outros viam tanto ele quanto seu lugar no mundo – contam-nos séculos de História do Brasil. Penso, porém, que temos avançado nas últimas décadas – e especialmente nessa última. O “doutor” usado pelo porteiro para tratar o condômino, pela empregada doméstica para tratar o patrão, pelo engraxate para tratar o cliente, pelo negro para tratar o branco não desapareceu – mas pelo menos está arrefecendo. 

Se alguém, especialmente nas grandes cidades, chamar hoje o outro de “doutor”, é legítimo desconfiar de que o interlocutor está brincando ou ironizando, porque parte das pessoas já tem noção da camada de ridículo que a forma de tratamento adquiriu ao longo dos anos. Essa mudança, é importante assinalar, reflete também a mudança de um país no qual o presidente mais popular da história recente é chamado pelo nome/apelido. Essa contribuição – mais sutil, mais subjetiva, mais simbólica – que se dá explicitamente pelo nome, contida na eleição de Lula, ainda merece um olhar mais atento, independentemente das críticas que se possa fazer ao ex-presidente e seu legado. 

Se o “doutor” genérico, usado para tratar os mais ricos, está perdendo seu prazo de validade, o “doutor” que anuncia médicos e advogados parece se manter tão vigoroso e atual quanto sempre. Por quê? Com tantas mudanças na sociedade brasileira, refletidas também no cinema e na literatura, não era de se esperar um declínio também deste doutor? 

Ao pesquisar o uso do “doutor” para escrever esta coluna, deparei-me com artigos de advogados defendendo que, pelo menos com relação à sua própria categoria, o uso do “doutor” seguia legítimo e referendado na lei e na tradição. O principal argumento apresentado para defender essa tese estaria num alvará régio no qual D. Maria, de Portugal, mais conhecida como “a louca”, teria outorgado o título de “doutor” aos advogados. Mais tarde, em 1827, o título de “doutor” teria sido assegurado aos bacharéis de Direito por um decreto de Dom Pedro I, ao criar os primeiros cursos de Ciências Jurídicas e Sociais no Brasil. Como o decreto imperial jamais teria sido revogado, ser “doutor” seria parte do “direito” dos advogados. E o título teria sido “naturalmente” estendido para os médicos em décadas posteriores. 
Há, porém, controvérsias. Em consulta à própria fonte, o artigo 9 do decreto de D. Pedro I diz o seguinte: “Os que frequentarem os cinco anos de qualquer dos Cursos, com aprovação, conseguirão o grau de Bacharéis formados. Haverá também o grau de Doutor, que será conferido àqueles que se habilitarem com os requisitos que se especificarem nos Estatutos, que devem formar-se, e só os que o obtiverem, poderão ser escolhidos para Lentes”. Tomei a liberdade de atualizar a ortografia, mas o texto original pode ser conferido aqui. “Lente” seria o equivalente hoje à livre-docente. 

Mesmo que Dom Pedro I tivesse concedido a bacharéis de Direito o título de “doutor”, o que me causa espanto é o mesmo que, para alguns membros do Direito, garantiria a legitimidade do título: como é que um decreto do Império sobreviveria não só à própria queda do próprio, mas também a tudo o que veio depois? 

O fato é que o título de “doutor”, com ou sem decreto imperial, permanece em vigor na vida do país. Existe não por decreto, mas enraizado na vida vivida, o que torna tudo mais sério. A resposta para a atualidade do “doutor” pode estar na evidência de que, se a sociedade brasileira mudou bastante, também mudou pouco. A resposta pode ser encontrada na enorme desigualdade que persiste até hoje. E na forma como essas relações desiguais moldam a vida cotidiana. 

É no dia a dia das delegacias de polícia, dos corredores do Fórum, dos pequenos julgamentos que o “doutor” se impõe com todo o seu poder sobre o cidadão “comum”. Como repórter, assisti à humilhação e ao desamparo tanto das vítimas quanto dos suspeitos mais pobres à mercê desses doutores, no qual o título era uma expressão importante da desigualdade no acesso à lei. No início, ficava estarrecida com o tratamento usado por delegados, advogados, promotores e juízes, falando de si e entre si como “doutor fulano” e “doutor beltrano”. Será que não percebem o quanto se tornam patéticos ao fazer isso?, pensava. Aos poucos, percebi a minha ingenuidade. O “doutor”, nesses espaços, tinha uma função fundamental: a de garantir o reconhecimento entre os pares e assegurar a submissão daqueles que precisavam da Justiça e rapidamente compreendiam que a Justiça ali era encarnada e, mais do que isso, era pessoal, no amplo sentido do termo. 

No caso dos médicos, a atualidade e a persistência do título de “doutor” precisam ser compreendidas no contexto de uma sociedade patologizada, na qual as pessoas se definem em grande parte por seu diagnóstico ou por suas patologias. Hoje, são os médicos que dizem o que cada um de nós é: depressivo, hiperativo, bipolar, obeso, anoréxico, bulímico, cardíaco, impotente, etc. Do mesmo modo, numa época histórica em que juventude e potência se tornaram valores – e é o corpo que expressa ambas – faz todo sentido que o poder médico seja enorme. É o médico, como manipulador das drogas legais e das intervenções cirúrgicas, que supostamente pode ampliar tanto potência quanto juventude. E, de novo supostamente, deter o controle sobre a longevidade e a morte. A ponto de alguns profissionais terem começado a defender que a velhice é uma “doença” que poderá ser eliminada com o avanço tecnológico.  

O “doutor” médico e o “doutor” advogado, juiz, promotor, delegado têm cada um suas causas e particularidades na história das mentalidades e dos costumes. Em comum, o doutor médico e o doutor advogado, juiz, promotor, delegado têm algo significativo: a autoridade sobre os corpos. Um pela lei, o outro pela medicina, eles normatizam a vida de todos os outros. Não apenas como representantes de um poder que pertence à instituição e não a eles, mas que a transcende para encarnar na própria pessoa que usa o título.  

Se olharmos a partir das relações de mercado e de consumo, a medicina e o direito são os únicos espaços em que o cliente, ao entrar pela porta do escritório ou do consultório, em geral já está automaticamente numa posição de submissão. Em ambos os casos, o cliente não tem razão, nem sabe o que é melhor para ele. Seja como vítima de uma violação da lei ou como autor de uma violação da lei, o cliente é sujeito passivo diante do advogado, promotor, juiz, delegado. E, como “paciente” diante do médico, como abordei na coluna anterior, deixa de ser pessoa para tornar-se objeto de intervenção. 

Num país no qual o acesso à Justiça e o acesso à Saúde são deficientes, como o Brasil, é previsível que tanto o título de “doutor” permaneça atual e vigoroso quanto o que ele representa também como viés de classe. Apesar dos avanços e da própria Constituição, tanto o acesso à Justiça quanto o acesso à Saúde permanecem, na prática, como privilégios dos mais ricos. As fragilidades do SUS, de um lado, e o número insuficiente de defensores públicos de outro são expressões dessa desigualdade. Quando o direito de acesso tanto a um quanto a outro não é assegurado, a situação de desamparo se estabelece, assim como a subordinação do cidadão àquele que pode garantir – ou retirar – tanto um quanto outro no cotidiano. Sem contar que a cidadania ainda é um conceito mais teórico do que concreto na vida brasileira. 

Infelizmente, a maioria dos “doutores” médicos e dos “doutores” advogados, juízes, promotores, delegados etc estimulam e até exigem o título no dia a dia. E talvez o exemplo público mais contundente seja o do juiz de Niterói (RJ) que, em 2004, entrou na Justiça para exigir que os empregados do condomínio onde vivia o chamassem de “doutor”. Como consta nos autos, diante da sua exigência, o zelador retrucava: “Fala sério....” Não conheço em profundidade os fatos que motivaram as desavenças no condomínio – mas é muito significativo que, como solução, o juiz tenha buscado a Justiça para exigir um tratamento que começava a lhe faltar no território da vida cotidiana. 

É importante reconhecer que há uma pequena parcela de médicos e advogados, juízes, promotores, delegados etc que tem se esforçado para eliminar essa distorção. Estes tratam de avisar logo que devem ser chamados pelo nome. Ou por senhor ou senhora, caso o interlocutor prefira a formalidade – ou o contexto a exija. Sabem que essa mudança tem grande força simbólica na luta por um país mais igualitário e pela ampliação da cidadania e dos direitos. A estes, meu respeito.  

Resta ainda o “doutor” como título acadêmico, conquistado por aqueles que fizeram doutorado nas mais diversas áreas. No Brasil, em geral isso significa, entre o mestrado e o doutorado, cerca de seis anos de estudo além da graduação. Para se doutorar, é preciso escrever uma tese e defendê-la diante de uma banca. Neste caso, o título é – ou deveria ser – resultado de muito estudo e da produção de conhecimento em sua área de atuação. É também requisito para uma carreira acadêmica bem sucedida – e, em muitas universidades, uma exigência para se candidatar ao cargo de professor.

Em geral, o título só é citado nas comunicações por escrito no âmbito acadêmico e nos órgãos de financiamento de pesquisas, no currículo e na publicação de artigos em revistas científicas e/ou especializadas. Em geral, nenhum destes doutores é assim chamado na vida cotidiana, seja na sala de aula ou na padaria. E, pelo menos os que eu conheço, caso o fossem, oscilariam entre o completo constrangimento e um riso descontrolado. Não são estes, com certeza, os doutores que alimentam também na expressão simbólica a abissal desigualdade da sociedade brasileira.

Estou bem longe de esgotar o assunto aqui nesta coluna. Faço apenas uma provocação para que, pelo menos, comecemos a estranhar o que parece soar tão natural, eterno e imutável – mas é resultado do processo histórico e de nossa atuação nele. Estranhar é o verbo que precede o gesto de mudança. Infelizmente, suspeito de que “doutor fulano” e “doutor beltrano” terão ainda uma longa vida entre nós. Quando partirem desta para o nunca mais, será demasiado tarde. Porque já é demasiado tarde – sempre foi. 

*Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance - Uma Duas (LeYa) - e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. elianebrum@uol.com.br
@brumelianebrum

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Escrever ou revisar - Postagem de blog

ESCREVER OU REVISAR
O post será breve: compõe-se de uma citação e de pequenos comentários.

“Toda terça, lá pelas quatro da tarde, envio a crônica para a Andressa Taffarel, a Lívia Scatena e a Daniela Mercier, redatoras aqui do “Cotidiano”. Duas horas depois, mais ou menos, uma delas me devolve o texto com todos os meus descalabros diligentemente corrigidos e grifados de amarelo. São erros de ortografia e de digitação, vírgulas e mais vírgulas que vão pro beleléu, um ou outro ajuste ao padrão Folha – séculos “XXI” que se adéquam aos ditames do 21, “cowboys” que aprendem a falar sem a afetação do sotaque, como bons caubóis, “quinze pras seis” que trocam a imprecisão das letras pela pontualidade dos números: 17h45”.

O texto é de Antonio Prata, que, como o leitor deve ter sacado, publica uma crônica semanal no jornal Folha de S. Paulo. Os leitores do jornal o conhecem. É uma pena, provavelmente, que ninguém conheça as três redatoras que arrumam o texto dele, que devem ser ótimas profissionais.

Minha questão é ainda a correção das redações do ENEM. Se Antonio Prata estiver dizendo a verdade, ele seria bastante penalizado por muitos leitores e por quase todos os jornalistas que comentaram o fato. Mas, provavelmente, o que é bom, muito bom, não pelos corretores das provas do ENEM.

No fundo, eles esperam que todos os estudantes estejam prontos para serem revisores. As normas do INEP são bem mais interessantes: espera-se que o estudante que “faz o ENEM” esteja mais para Antonio Prata do que para as redatoras que corrigem o texto dele. Porque ele escreve! Elas não!

Estou dizendo que não se deve ou que não é bom saber ortografia e quejandos?  Não, não digo nada disso, não defendo esta posição. Apenas constato que quem escreve (insisto em ESCREVE) eventualmente – ou geralmente – não é bom revisor. E vice-versa.

O que as provas devem selecionar, de preferência? Sustento que, por mais interessante e útil que seja revisar, o mais importante é escrever. Uma boa redação (nota 1000, talvez) é aquela que, revisada (por outros), merece 1000. Simples assim.

Sírio Possenti: linguista e professor da UNICAMP. Retirado de http://terramagazine.terra.com.br/blogdosirio/blog/2013/05/30/escrever-ou-revisar/

domingo, 26 de maio de 2013

Arquivos do Culturas do Mundo

Os arquivos das nossas aulas no Plug Minas disponíveis para vocês.


Tutorial para baixar os arquivos aqui.

A vovó na janela - Artigo de opinião

Em uma pesquisa internacional sobre aprendizado de leitura, os resultados da Coréia pareciam errados, pois eram excessivamente elevados. Despachou-se um emissário para visitar o país e checar a aplicação. Era isso mesmo. Mas, visitando uma escola, ele viu várias mulheres do lado de fora das janelas, espiando para dentro das salas de aula. Eram as avós dos alunos, vigiando os netos, para ver se estavam prestando atenção nas aulas. 

(...)

A obsessão nacional que leva as avós às janelas é a principal razão para os bons resultados da educação em países com etnias chinesas. A qualidade do ensino é um fator de êxito, mas, antes de tudo, é uma conseqüência da importância fatal atribuída pelos orientais à educação.


Pesquisadores americanos foram observar o funcionamento das casas de imigrantes orientais. Verificou-se que os pais, ao voltar para casa, passam a comandar as operações escolares. A mesa da sala transforma-se em área de estudo, à qual todos se sentam, sob seu controle estrito. Os que sabem inglês tentam ajudar os filhos. Os outros – e os analfabetos – apenas vigiam. Os pais não se permitem o luxo de outras atividades e abrem mão da TV. No Japão, é comum as mães estudarem as matérias dos filhos, para que possam ajudá-los em suas tarefas de casa.

Fala-se do milagre educacional coreano. Mas fala-se pouco do esforço das famílias. Lá, como no Japão, os cursinhos preparatórios começam quase tão cedo quanto a escola. Os alunos mal saem da aula e têm de mergulhar no cursinho. O que gastam as famílias pagando professores particulares e cursinhos é o mesmo que gasta o governo para operar todo o sistema escolar público.

Esses exemplos lançam algumas luzes sobre o sucesso dos países do Leste Asiático em matéria de educação. Mostram que tudo começa com o desvelo da família e com sua crença inabalável de que a educação é o segredo do sucesso. Países como Coréia, Cingapura e Taiwan não gastam muito mais do que nós em educação. A diferença está no empenho da família, que turbina o esforço dos filhos e força o governo a fazer sua parte.

É curioso notar que os nipo-brasileiros são 0,5% da população de São Paulo. Mas ocupam 15% das vagas da USP. Não obstante, seus antepassados vieram para o Brasil praticamente analfabetos.

Muitos pais brasileiros de classe média achincalham nossa educação. Mas seu esforço e sacrifício pessoal tendem a ser ínfimos. Quantos deixam de ver TV para assegurar-se de que seus pimpolhos estão estudando? Quantos conversam freqüentemente com os filhos? As pesquisas mostram que tais gestos têm impacto enorme sobre o desempenho dos filhos. Se a família é a primeira linha de educação e apoio à escola, que lições estamos dando às famílias mais pobres?

(...)

No Brasil, uma pesquisa recente em escolas particulares de bom nível mostrou que os alunos do último ano do ensino médio disseram dedicar apenas uma hora por dia aos estudos – além das aulas. Outra pesquisa indicou que os jovens assistem diariamente a quatro horas de TV. Esses são os alunos que dizem estar se preparando para vestibulares impossíveis.

Cada sociedade tem a educação que quer. A nossa é péssima, antes de tudo, porque aceitamos passivamente que assim seja, além de não fazer nossa parte em casa. Não podemos culpar as famílias pobres, mas e a indiferença da classe média? Está em boa hora para um exame de consciência. Estado, escola e professores têm sua dose de culpa. Mas não são os únicos merecendo puxões de orelha.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O mito da língua perfeita - artigo


MITO DA LÍNGUA PERFEITA - Sírio Possenti

Volto ao tema. O filósofo Roberto Romano escreveu artigo (Estadão de 10/02/2013) cujo mote foi uma fala da presidenta, na qual ela empregava a palavra “vilipêndio”. Não vem ao caso discutir o artigo. Apenas me interessa uma de suas passagens: “vilipêndio vem do baixo latim, vilipendere, uma corrupção do termo clássico vili…”. Por que é corrupção? Por que não dizer simplesmente que houve uma mudança no sentido da palavra? Úm velho discurso, desmentido por todas as teorias que levam em conta seja as estruturas internas das línguas e dialetos, especialmente se combinados com uma pitada, por mínima que seja, de história.

Um dos tópicos mais comuns no tratamento mítico das línguas é supor que, em algum momento, houve uma língua perfeita. O que veio depois teria sido corrupção / corruptela. Observe-se que o mesmo discurso se aplica às sociedades: nelas, a decadência seria constante. Mas é mesmo?
Os argumentos são ruins: num caso, porque ninguém sabe qual teria sido a tal língua perfeita e quais suas características; segundo, e mais importante, as formas que se conhecem e das quais dizemos que foram corrompidas não são as originais (segundo esse raciocínio, já podem / devem ter sido corrompidas).  Por que a palavra “vili”, em determinado período, teria um “sentido verdadeiro”? Só porque não conhecemos sua história anterior?

(É comum que o argumento seja invocado em discussões de costumes políticos. O que se diz sempre é que “república” não é apenas uma forma de governo; que a palavra vem de res publica, ‘coisa pública’, o que implica que deve haver moralidade, que não pode haver mistura de interesses públicos e privados etc. Ora, a república romana não foi assim; nem os impérios foram necessariamente mais sujos que elas).

Na semana passada, disse que não há bons argumentos para a defesa de formas mais antigas da língua; o único é o “respeito” à tradição. Não discuti se a tradição deve ser defendida. Apenas indiquei que, em muitos campos, ela não vale nada, é desprezada. Às vezes, é defendida no campo moral e familiar, mas quantos queremos uma família patriarcal com as mulheres nos papeis que conhecemos bem?

A questão é estética, disse uma leitora, que se horroriza com formas como “amá”. Pode ser, mas aposto que ela mesma diz amá, benzê, dançá, saí, í pro cinema etc. O que acontece é que a escrita registra dessa pronúncia do final dos infinitivos parece estranha. Faladas, ninguém as percebe como erros.
Sem contar que esquecemos a história: os infinitivos um dia tiveram um –e final: amare, scribere, ponere. Alguém sente falta dele? Ora, como sentiríamos falta, se nem sabíamos que existiu?
Questão estética: isso dá um bom debate. Quer dizer que a arte clássica é arte? Ticiano sim, Picasso não? E a literatura de João Antônio e de Rubem Fonseca? E a de Mark Twain, fundadora da americana, segundo Hemingway?

No caso da língua e também nos outros, trata-se da tradição. E, às vezes, de pouca informação.

(Retirado de http://terramagazine.terra.com.br/blogdosirio/blog)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Preparando o início do ano letivo

Língua Portuguesa: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. Caderno de revisão. Editora Saraiva.

Escrever não é só escrever

          Escrever (...) não é um milagre, nem reduz-se apenas a escrever. Por trás de todo texto bem escrito está uma personalidade equilibrada, está uma curiosidade permanente em aprender, estão práticas constantes de leituras, de observações de fatos da linguagem e do discurso, de aquisição de vocabulário, de assimilação de modelos de frases e de novas soluções que vão surgindo no acervo coletivo da linguagem escrita.
          (...)
          A exigência da redação nos exames vestibulares não é mera questão de opinião deste ou daquele educador, mas uma certeza fundada em conhecimento científico e na evidência de que o que denominamos "cultura" e "civilização" humanas é, na realidade, um vasto e complexo intertexto, dentro do qual nos movemos com maior ou menor destreza segundo nossa formação, determinação e experiência.
          (...)
          Assim, não saber ler nem escrever, ou, mesmo sabendo, não ler e não escrever habitualmente é ficar aleijado, é colocar-se em rota oposta à grande via civilizatória e, deste modo, como diria um poeta, desviver.

CHOCIAY, Rogério. Redação no vestibular da Unesp: a dissertação. São Paulo: Fundação Vunesp, 2004.


E aí, galera! Preparados para mais um ano de estudo e dedicação? Que venha o sucesso!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

domingo, 9 de dezembro de 2012

Mais acordo

Segue aí o power point da aula sobre Acordo Ortográfico dessa semana. Atenção: hífen, só semana que vem!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Adélia Prado no Museu Abílio Barreto

Sei que não se fotografa em museu, mas achei tão lindo que não resisti. Bem na cozinha, com a mesa grande, de madeira, como afirma Drummond. Até me emocionou.


A origem da corrupção - artigo de opinião

Como é que ninguém pensou nisso antes?

A origem da corrupção - Stephen Kanitz

O Brasil não é um país intrinsecamente corrupto. Não existe nos genes brasileiros nada que nos predisponha à corrupção, algo herdado, por exemplo, de desterrados portugueses. 

A Austrália que foi colônia penal do império britânico, não possui índices de corrupção superiores aos de outras nações, pelo contrário. Nós brasileiros não somos nem mais nem menos corruptos que os japoneses, que a cada par de anos têm um ministro que renuncia diante de denúncias de corrupção. 

Somos, sim, um país onde a corrupção, pública e privada, é detectada somente quando chega a milhões de dólares e porque um irmão, um genro, um jornalista ou alguém botou a boca no trombone, não por um processo sistemático de auditoria. As nações com menor índice de corrupção são as que têm o maior número de auditores e fiscais formados e treinados. A Dinamarca e a Holanda possuem 100 auditores por 100.000 habitantes. Nos países efetivamente auditados, a corrupção é detectada no nascedouro ou quando ainda é pequena. O Brasil, país com um dos mais elevados índices de corrupção, segundo o World Economic Forum, tem somente oito auditores por 100.000 habitantes, 12.800 auditores no total. Se quisermos os mesmos níveis de lisura da Dinamarca e da Holanda precisaremos formar e treinar 160.000 auditores. 

Simples. Uma das maiores universidades do Brasil possui hoje 62 professores de Economia, mas só um de auditoria. Um único professor para formar os milhares de fiscais, auditores internos, auditores externos, conselheiros de tribunais de contas, fiscais do Banco Central, fiscais da CVM e analistas de controles internos que o Brasil precisa para combater a corrupção. 

A principal função do auditor inclusive nem é a de fiscalizar depois do fato consumado, mas a de criar controles internos para que a fraude e a corrupção não possam sequer ser praticadas. Durante os anos de ditadura, quando a liberdade de imprensa e a auditoria não eram prioridade, as verbas da educação foram redirecionadas para outros cursos. Como consequência, aqui temos doze economistas formados para cada auditor, enquanto nos Estados Unidos existem doze auditores para cada economista formado. Para eliminar a corrupção teremos de redirecionar rapidamente as verbas de volta ao seu devido destino, para que sejamos uma nação que não precise depender de dedos duros ou genros que botam a boca no trombone, e sim de profissionais competentes com uma ética profissional elaborada. 

Países avançados colocam seus auditores num pedestal de respeitabilidade e de reconhecimento público que garante a sua honestidade. Na Inglaterra, instituíram o Chartered Accountant. Nos Estados Unidos eles têm o Certified Public Accountant. Uma mãe inglesa e americana sonha com um filho médico, advogado ou contador público. No Brasil, o contador público foi substituído pelo engenheiro. 

Bons salários e valorização social são os requisitos básicos para todo sistema funcionar, mas no Brasil estamos pagando e falando mal de nossos fiscais e auditores existentes e nem ao menos treinamos nossos futuros auditores. Nos últimos nove anos, os salários de nossos auditores públicos e fiscais têm sido congelados e seus quadros, reduzidos - uma das razões do crescimento da corrupção. Como o custo da auditoria é muito grande para ser pago pelo cidadão individualmente, essa é uma das poucas funções próprias do estado moderno. Tanto a auditoria como a fiscalização, que vai dos alimentos e segurança de aviões até os direitos do consumidor e os direitos autorais.

O capitalismo remunera quem trabalha e ganha, mas não consegue remunerar quem impede o outro de ganhar roubando. Há quem diga que não é papel do Estado produzir petróleo, mas ninguém discute que é sua função fiscalizar e punir quem mistura água ao álcool. Não serão intervenções cirúrgicas (leia-se CPIs), nem remédios potentes (leia-se códigos de ética), que irão resolver o problema da corrupção no Brasil. Precisamos da vigilância de um poderoso sistema imunológico que combata a infecção no nascedouro, como acontece nos países considerados honestos e auditados. Portanto, o Brasil não é um país corrupto. É apenas um país pouco auditado. 

Publicado na Revista Veja, edição 1600, ano 32, nº 22, de 2 de junho de 1999, página 21. Retirado de www.kanitz.com.br